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Dossiê Nacional deTransmasculinidades Negras e Periféricaspor Justiça Reprodutiva, Equidade Racial e Direitos Humanos

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Realização
Instituto de Justiça ReprodutivaLiga Transmasculina João W. Nery
Apoio
International Trans Fund
Ativistas trans e aliadas reunidos em auditório, muitos segurando exemplares do Dossiê, no dia do lançamento.

150+

homens trans e pessoas transmasculinas negras e periféricas foram ouvidos

Nos 5 Fóruns Regionais, de 29 de outubro a 4 de novembro de 2025, eles disseram o que falta para que o SUS cuide dos seus corpos.

Lançamento do Dossiê, Brasília, 2026

A escuta em números

O Dossiê sistematiza as falas dos Fóruns Regionais com metodologia qualitativa e participativa. Os relatos de participantes aparecem sem identificação.

Mosaico com retratos de homens trans e pessoas transmasculinas negras e periféricas que participaram dos Fóruns.
Participantes dos Fóruns
territórios16 + DFestados representados nas 5 regiões
escuta10h+de fóruns gravados
relatos300+páginas transcritas

As três perguntas dos Fóruns

  1. Qual a principal demanda de saúde sexual e reprodutiva das transmasculinidades negras e periféricas do seu território?
  2. Quais caminhos são possíveis para enfrentar essa realidade?
  3. O que você gostaria que mudasse na forma como o SUS acolhe (ou não) o seu corpo?

Da escuta ao Congresso

Marcha com faixa onde se lê: Pelo direito de sonhar novos futuros.
Foto: Fotoart_Cenas

I Fórum Nacional

Realizado durante a II Marsha Trans Brasil, em Brasília, com mais de 100 pessoas. Dele saiu a decisão de fazer fóruns em cada região.

Ativista trans fala ao microfone em mesa com bandeiras de marchas trans e exemplares do Dossiê.

5 Fóruns Regionais

Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul, sobre justiça reprodutiva e direito à saúde.

Quatro pessoas sorriem segurando juntas um exemplar do Dossiê.

Lançamento

No II Fórum Nacional, na Câmara dos Deputados, o Dossiê é entregue aos Ministérios da Saúde, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos e Cidadania.

diagnóstico transversal

8 estruturas de exclusão

O Brasil tem realidades regionais muito diferentes, mas a exclusão de homens trans negros e periféricos do SUS segue o mesmo padrão em todo o país.

01

Guetização do cuidado

A atenção básica empurra qualquer demanda de homens trans para o ambulatório especializado.

02

Corpo-teste

Profissionais que “aprendem” no paciente e desrespeitam nome social e acordos cirúrgicos.

03

Esterilidade simbólica

Falta informação sobre testosterona, fertilidade, contracepção e preservação de gametas.

04

Racismo obstétrico

A ideia racista de que pessoas negras sentem menos dor leva à recusa de analgesia no parto.

05

Saúde além do ambulatório

Fome, moradia e transporte decidem se o tratamento continua.

06

Silêncio estatístico

Os sistemas do SUS não cruzam identidade de gênero, raça e território. Sem dados, não há orçamento.

07

Expropriação do cuidado

Ao transicionar, homens trans perdem redes e práticas de cuidado que tinham antes.

08

Justiça reprodutiva ciscentrada

Políticas que só enxergam mulheres cis como pessoas que gestam.

o que foi relatado × o que existe

O que as escutas contaram e o que o levantamento mostra

À esquerda, em rosa, o que homens trans relataram nos Fóruns Regionais do Dossiê. À direita, em branco, os serviços públicos de saúde para pessoas trans encontrados no Levantamento do Instituto de Justiça Reprodutiva e Liga Transmasculina João W. Nery.

Serviço ambulatorial

Lugar de atendimento sem internação: consultas, acompanhamento com equipe de várias áreas, hormonização com testosterona e cuidado antes e depois de cirurgias. Inclui alguns serviços de apoio, como centros de testagem (CTA/SAE) e CREAS.

Hospital com cirurgias

Hospital que faz, pelo SUS, as cirurgias do Processo Transexualizador, com internação, seja habilitado pelo Ministério da Saúde ou com oferta confirmada pelo hospital ou pela gestão local. Para homens trans: mastectomia (retirada das mamas) e histerectomia (retirada do útero).

Estado sem nenhum serviço

Estado onde o levantamento não encontrou nenhum ambulatório nem hospital para pessoas trans. Quem mora lá precisa viajar para outro estado para ser atendido.

Como ler cada achadoConfirma o relatoAmplia o relato

Relatado nas escutas

Norte e Amazônia

“Quando a gente pensa em gestação, as pessoas vão pensar em corpos de mulheres cis. Não vão pensar nos corpos de homens trans.”Relato do Fórum Regional Norte

  • O cuidado fica concentrado em Manaus e Belém; ribeirinhos e interior ficam isolados.
  • Rondônia e Roraima não teriam nenhum ambulatório especializado.
  • Sem serviço, muitos recorrem à hormonização por conta própria.

Diagnóstico regional: Ravi Veiga, Casa Duda LGBTQIA+ da Amazônia

O que existe, segundo o levantamento

4serviços ambulatoriais
1hospitais com cirurgias
5estados sem nenhum serviço
  • Confirma o relato

    Os 4 serviços ambulatoriais da região ficam só em Manaus (1) e Belém (3). Interior e comunidades ribeirinhas não têm serviço listado.

  • Amplia o relato

    Não são só Rondônia e Roraima: Acre, Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins não têm nenhum serviço listado. São 5 dos 7 estados da região.

Único hospital com cirurgias na região: Hospital Jean Bitar, em Belém.

Fonte: Levantamento do Instituto de Justiça Reprodutiva e Liga Transmasculina João W. Nery; hospitais: pesquisa complementar (veja as fontes no mapa abaixo)

mapa interativo

Veja qual a situação no seu estado

Toque em um estado no mapa ou escolha na lista. As cores mostram o que existe em cada um: os serviços ambulatoriais do Levantamento do Instituto de Justiça Reprodutiva e Liga Transmasculina João W. Nery, os serviços habilitados pelo Ministério da Saúde e os hospitais que fazem cirurgias do Processo Transexualizador pelo SUS, com fonte para cada um.

Só atendimento ambulatorial Tem hospital com cirurgias pelo SUS Estado sem nenhum serviço

O número em cada estado é a quantidade de serviços ambulatoriais do levantamento; nos estados menores, ele aparece ao tocar. Mapa base: SVG Maps (CC BY 4.0).

Selecione um estado para ver quantos serviços ambulatoriais e hospitais com cirurgias existem nele.

121serviços ambulatoriais no país
19hospitais com cirurgias pelo SUS
5estados sem nenhum serviço
Endereços e telefones de todos os serviços ↗
Fontes do mapa
  1. Serviços ambulatoriais: Levantamento do Instituto de Justiça Reprodutiva e Liga Transmasculina João W. Nery, elaborado a partir da Cartilha Nacional de Serviços Públicos de Saúde para a Pessoa Trans (UFSB, 2026).
  2. Serviços habilitados pelo Ministério da Saúde (27 até 2024): RODRIGUES, J. S.; OLIVEIRA, S. R. A. Linha do tempo da atenção à saúde das pessoas trans no SUS: 1997–2025. Recife: Instituto Aggeu Magalhães/Fiocruz, 2025. https://api.arca.fiocruz.br/api/core/bitstreams/3476a556-0d93-4e30-983f-173f439e4e83/content
  3. Total de 27 unidades habilitadas, segundo o Ministério da Saúde: Brasil de Fato, 29 jan. 2025. https://www.brasildefato.com.br/2025/01/29/16-anos-depois-processo-transexualizador-no-sus-segue-restrito-e-sob-ataque/
  4. São Paulo: SECRETARIA MUNICIPAL DA SAÚDE DE SÃO PAULO. Orientações e fluxos para cirurgias. mai. 2025. https://sites.usp.br/guiacseb/wp-content/uploads/sites/943/2025/05/Orientacoes-e-fluxos-para-Cirurgias-2025.pdf; COSEMS-SP. Assistência à saúde de pessoas trans no HMM Prof. Mário Degni. https://www.cosemssp.org.br/noticias/acervo-digital/assistencia-a-saude-de-pessoas-trans-no-processo-de-afirmacao-de-genero-no-hmm-prof-mario-degni/
  5. Pernambuco: Marco Zero Conteúdo, 28 jun. 2026. https://marcozero.org/mastectomia-no-sus-devolve-liberdade-do-banho-de-mar-para-pessoas-transmasculinas/
  6. Ceará: Diário do Nordeste, 12 jun. 2025. https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/ceara/primeira-mastectomia-trans-pelo-sus-e-realizada-no-ceara-liberdade-indescritivel-1.3659255
  7. Alagoas: Tribuna do Sertão, 11 maio 2026. https://www.tribunadosertao.com.br/alagoas/2026/05/11/899815-hospital-metropolitano-realiza-mastectomia-masculinizadora-e-garante-mais-qualidade-de-vida-a-paciente
  8. Bahia: Correio, 17 ago. 2023. https://www.correio24horas.com.br/minha-bahia/primeira-cirurgia-de-redesignacao-sexual-da-bahia-pelo-sus-e-feita-em-salvador-0823
  9. Paraná: Brasil de Fato, 6 dez. 2024. https://www.brasildefato.com.br/2024/12/06/anuncio-que-o-hc-fara-duas-cirurgias-para-homens-trans-traz-esperancas-e-expetativas-para-o-futuro/
  10. Minas Gerais: Tribuna de Minas, 28 jun. 2024. https://tribunademinas.com.br/?p=667110
  11. Rio de Janeiro: UNIRIO, jun. 2023. https://www.unirio.br/news/hugg-realiza-as-primeiras-cirurgias-de-redesignacao-de-genero-de-sua-historia
levantamento nacional

Onde estão os serviços de saúde para pessoas trans

O levantamento lista 121 serviços ambulatoriais. Somando a pesquisa complementar, há pelo menos 19 hospitais fazendo cirurgias do Processo Transexualizador pelo SUS, em 11 estados. Quase metade dos serviços fica em São Paulo. O Norte tem 4.

pessoas trans~4 mide pessoas trans ou não binárias no Brasil
habilitados pelo Ministério da Saúde27serviços até 2024, em 15 estados (Fiocruz, 2025)
015304560 418106128 16273 NorteNordesteCentro-OesteSudesteSul 5 estados sem nenhum serviço51 em São Paulo22 no RS

serviços ambulatoriais: consultas e acompanhamento, sem internaçãohospitais com cirurgias pelo SUS (pesquisa complementar)

Fonte: Levantamento do Instituto de Justiça Reprodutiva e Liga Transmasculina João W. Nery. Contagem por região; inclui serviços habilitados e não habilitados pelo Ministério da Saúde, e alguns serviços de apoio, como CTA e CREAS. O próprio levantamento registra que há serviços que não estão habilitados e que o número segue insuficiente.

Ter serviço não basta: apagamento completo

“Se já existe um apagamento das transmasculinidades brancas, quando a gente fala das transmasculinidades negras, a gente vai para um apagamento completo.”Relato do Fórum Regional Sul

O Sul tem a segunda maior rede de serviços do país, mas quem chega até ela não reflete a população negra da região.

Quem é atendido no ambulatório trans de Porto Alegre
77,9%pessoas brancas
22,1%pessoas pretas
Pesquisa de Thomazi, Aguilar, Rocha e Neves (2024), citada no Dossiê. A população negra é cerca de 20% da região Sul.
desinformação

Isso não é verdade

Mitos que circulam e afastam homens trans do cuidado. Para cada um, o que as escutas mostraram e o que é fato, segundo o Dossiê e o Levantamento do Instituto de Justiça Reprodutiva e Liga Transmasculina João W. Nery.

MITO

“Quem toma testosterona não engravida”

Nas escutas, a falta de informação sobre testosterona, fertilidade e contracepção apareceu como uma forma de “esterilidade simbólica”.Diagnóstico do Dossiê, a partir dos Fóruns

FatoA testosterona pode interromper a menstruação, mas não impede a gravidez. O Dossiê alerta que esse mito expõe homens trans a gestações não planejadas.

MITO

“Homem trans não gesta”

“Quando a gente pensa em gestação, as pessoas vão pensar em corpos de mulheres cis. Não vão pensar nos corpos de homens trans.”Relato do Fórum Regional Norte

FatoHomens trans também menstruam, engravidam, gestam, têm partos e podem recorrer ao aborto. Precisam de pré-natal e cuidado no parto e no pós-parto.

MITO

“Pessoa trans só pode ser atendida no ambulatório trans”

“Se eu quebrar um braço, tiver diabetes ou uma crise de enxaqueca, não é o ambulatório trans que deveria dar conta disso.”Relato do Fórum Regional Centro-Oeste

FatoA Atenção Básica (a UBS) é a porta de entrada prioritária no SUS, também para pessoas trans, com acolhimento humanizado e respeito ao nome social.

MITO

“O Processo Transexualizador é só para mulheres trans”

Quando foi criado no SUS, em 2008, o Processo Transexualizador atendia apenas mulheres trans.Histórico registrado no levantamento

FatoDesde 2013, com a Portaria nº 2.803, homens trans e travestis também têm direito ao Processo Transexualizador no SUS.

MITO

“O SUS não faz cirurgias para homens trans”

Nas escutas, o pedido não é por cirurgias que não existem, e sim por respeito aos acordos feitos com quem opera.Diagnóstico do Dossiê, a partir dos Fóruns

FatoMastectomia e histerectomia estão na tabela de procedimentos do SUS para o Processo Transexualizador. Hospitais em pelo menos 11 estados fazem essas cirurgias pelo SUS, como o Hospital Municipal Mário Degni, em São Paulo, e o Hospital das Clínicas da UFPE, no Recife.

MITO

“Homem trans não precisa de preventivo”

“Precarizados na porta de entrada, patologizados no corredor e desumanizados na sala de procedimentos.”Relato do Fórum Regional Nordeste

FatoQuem tem colo do útero precisa do rastreio, com ou sem testosterona. O Dossiê mostra que homens trans fazem menos esse exame por medo de constrangimento e por negligência.

o que o Estado precisa fazer

35 recomendações

Organizadas em sete blocos, com cinco recomendações para cada ente. No Dossiê completo, cada uma vem com o caminho de implementação e os benefícios para a população e para a gestão pública. Toque em um bloco para ver as cinco.

Direitos de pessoas trans no SUS

O básico, segundo o Levantamento do Instituto de Justiça Reprodutiva e Liga Transmasculina João W. Nery.

+

Cuidado integral

Saúde é direito. O SUS deve cuidar de pessoas trans por inteiro, não só da transição.

UBS

Porta de entrada na UBS

Acolhimento humanizado, sem discriminação e com respeito ao nome social.

→

Encaminhamento

Da UBS, encaminhamento regulado para um serviço especializado do Processo Transexualizador.

T

Hormonioterapia

Nos ambulatórios, acompanhamento por equipe multiprofissional e testosterona disponibilizada mensalmente.

H

Cirurgias

Mastectomia e histerectomia em hospitais habilitados, com acompanhamento antes e depois.

§

Homens trans incluídos

Desde 2013 (Portaria nº 2.803), homens trans e travestis têm direito ao Processo Transexualizador.

Ativistas trans em plenário de comissão da Câmara dos Deputados, com a bandeira trans à mesa.
Câmara dos Deputados

Onde procurar: o levantamento traz, para cada estado, os serviços com endereço, horário e telefone.

para pessoas trans e profissionais de saúde

Ferramentas

Referências

  1. UNIVERSIDADE FEDERAL DO SUL DA BAHIA. Pró-Reitoria de Ações Afirmativas. Cartilha nacional de serviços públicos de saúde para a pessoa trans: rede de serviços ambulatoriais e hospitalares especializados. Itabuna: UFSB, 2026.
  2. JUNTES! SAÚDE SEXUAL E (NÃO) REPRODUTIVA PARA TODES. Serviços de aborto transinclusivos: um manual sobre a operacionalização de políticas e práticas trans-inclusivas para os serviços de aborto e suas equipes. Tradução e adaptação: Ale Mujica Rodríguez e Antonella Barone Guzmán. [S. l.]: Juntes!, 2024. Adaptado de: LOWIK, A. J. Trans-inclusive abortion services, 2018.
  3. GAY MEN'S SEXUAL HEALTH ALLIANCE (GMSH). Saúde dos homens trans. [S. l.]: GMSH, 2026. Disponível em: https://gmsh.ca/pt-br/saude-dos-homens-trans/. Acesso em: 1 nov. 2026.
imagens do Dossiê

Corpos, vozes e territórios

Fotos publicadas no Dossiê: marchas trans de norte a sul do país e a presença transmasculina no Congresso Nacional.

Homens trans e pessoas transmasculinas posam juntos com faixas e bandeiras na Marcha Trans da Bahia.
Marcha Trans da Bahia
Multidão em frente ao Congresso Nacional, em Brasília, na II Marsha Trans Brasil, com trio e faixa Vida, futuro e direitos trans.
II Marsha Trans Brasil, Brasília, 2025 · Foto: Distrito Drag
Pessoas carregam uma grande bandeira trans azul, rosa e branca na marcha do Rio de Janeiro.
II Marcha Trans & Travesti do Rio de Janeiro, 2023 · Acervo Marcha Trans RJ
Faixa da I Marcha Trans de Porto Alegre levada por manifestantes em avenida arborizada.
I Marcha Trans de Porto Alegre, 2025 · Foto: Julio Leão
Ativistas trans acompanham audiência em plenário de comissão da Câmara dos Deputados.
Câmara dos Deputados, 2025 · Acervo da Liga

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